Era Emily quem eu amava...

10:37:00




Me mudei para Los Angeles ainda pequeno, e com o trabalho que meus pais exerciam, tinha que ficar o tempo todo no colégio, isso desde meus 4 anos.
Lá amei muitas meninas, bom, era o que eu achava, que era amor... Eu dizia, Natasha é minha namorada, então andávamos juntos pelo pátio, colhíamos flores, e trocávamos cartas.
O tempo foi passando e passando, e já podia ficar sozinho em casa, e também perceber que os amores como o de Natasha, não eram amor... Eu não sabia mais o que era, ou se existia.
Quando saia pelas ruas, via casais felizes, dando as mãos e sorrindo. Imaginava se aquilo seria amor, bom, decidi encontrá-lo, esse tal de amor.
Término das férias de inverno, e era o momento de voltar para o colégio,um novo colégio, na minha casa meu pai se preocupava com a queda na bolsa de valores e minha mãe se teria tempo de arrumar seu cabelo, então percebi que se quisesse encontrar o amor, não seria ali.
O dia estava frio e nublado, meus sapatos estavam se sujando de lama nas poças pela rua, chegando ao colégio, fui conhecer meu armário e lá guardar minhas coisas, ao fechá-lo vi alguém no armário ao lado, disse oi, ela não respondeu.
Era aula de biologia e tínhamos de sentar em duplas para observar pelo microscópio, mal pude acreditar quando a professora chamou meu nome, e uma tal de Emily para ser minha dupla, ao vê-la percebi que se tratava da menina que estava no armário ao lado.
Emily era linda, tinha os cabelos até os ombros, meio cacheados, diferentes das outras meninas que pareciam todas iguais, ela se sobressaia. Seus olhos castanho-claros também eram belos e enormes, pareciam amêndoas. Ela era baixa, e tinha por volta de seus 15 anos.
Bom, a professora a trouxe e ela se sentou do meu lado.
Eu tentei puxar assunto mas ela não parecia interessada, na verdade ela só olhava para baixo, no microscópio e fazia anotações, era o que ela fazia.
A aula acabou, e eu disse tchau mas ela não me respondeu.
Comecei a ficar intrigado com aquela menina, principalmente o porquê dela não falar comigo.
Era tarde, e todos haviam sido dispensados das aulas, a vi saindo da sala de Artes, com sua mochila cor-de-rosa e tênis all star, ela olhava para baixo... Mais a frente algumas meninas zombavam dela, não pude ouvir o que diziam, queria interferir mas se fizesse, as coisas não dariam certo, então me contive.
Ainda olhando para baixo, ela foi andando e eu a seguindo. Até que ela entrou em um estúdio musical.
Ali eu não poderia entrar, então decidi voltar para casa.
Chegando em casa fiquei horas pensando em Emily, o que ela poderia estar fazendo. Era estranho porque jamais havia pensado em tais coisas, nunca havia me preocupado com alguém como me preocupei com ela.
Então ao ouvir Yesterday, ouvia também o barulho da chuva na janela e os pingos escorrendo no vidro, tudo era escuro e estava sozinho. Nem sei onde meus pais estavam, mas já havia me acostumado a isso, eles nunca estiveram. Mas havia algo diferente em todos aqueles anos vivendo em Los Angeles, algo que me motivava a acordar amanhã, o anseio de desvendar aquela menina.
Era de manhã e a casa estava quieta, meus pais já haviam saído e eu iria tomar o café, sei lá peguei as mesmas roupas que haviam se sujado de lama no dia anterior, que mal há pensei eu, e fui com elas até a aula.
Na nova escola não tinha feito amigos, mas nem deu tempo mesmo, afinal estava sempre atrás de Emily.
Matt um garoto do time de basketball, me convidou pra treinar e entrar no time, mas enquanto conversávamos ela passou, tive que me despedir dele e correr atrás dela.
Foram vários dias e sempre o mesmo destino após a aula, Emily entrava em um estúdio musical, mas o que ela fazia lá?
Em um desses dias, não pude simplesmente me virar e ir embora, entrei para ver o que ela fazia lá.
Ao entrar fiquei atrás de uma mesa observando, eu a olhava e pela primeira vez a vi sorrir. Ela sorria para uma senhora parecida com ela, deveria ser sua mãe.
Emily sentou-se ao piano e começou a tocar. Ela tocava divinamente. Fiquei um bom tempo ouvindo, tanto que meus pés adormeceram. Só me levantei quando percebi que ela iria se levantar, então corri para casa.
Já era noite, acho que haviam se passado horas sem que eu tivesse percebido, ao chegar minha mãe estava pedindo pizza para o jantar e meu pai lendo o jornal na sala, nem se deram conta que eu cheguei, fui para o quarto, pensei em amanhã conversar com alguém sobre ela, assim como quem não quer nada.
Decidi conversar com Matt. Ele era um cara legal, meio parecido com Michael Jordan, alto e as meninas estavam sempre atrás dele, era o ás do basket da nossa escola. Então decidi treinar e entrar no time.
Perguntei a Matt sobre Emily, ele nem se lembrava quem era ela, mas disse que iria perguntar a alguém e me dizer o que sabia.
Nas aulas de biologia, ela ainda não falava comigo e eu também não puxava assunto.
Só que percebi alguma coisa estranha, nossa professora nunca perguntava suas dúvidas para Emily, e sempre que a menina tinha uma dúvida, se levantava e ia até a mesa da professora, ela nunca dizia nada em voz alta.
Então me lembrei das meninas que caçoavam dela nos primeiros dias de aula, eram Melanie e o grupo das patricinhas, quem sabe elas falavam comigo.
Ótima ideia a minha, eu não era bom o suficiente para elas, tinham 15 anos mas pareciam ter 18 e isso  fazia-as  ter sucesso e status, conclusão: não falariam comigo jamais.
Então pensei na Srta. Brown de Biologia, ela sabe o porquê e quem sabe me conte.
Cheguei até ela e expressei o quanto Emily era talentosa no piano, e parecia ser uma boa aluna, só queria saber porque ela não falava comigo, então a Srta. Brown me disse que Emily havia perdido a voz, há alguns anos por isso não falava com ninguém e para completar há alguns meses estava tendo um severo problema auditivo, não escutava bem, na verdade era preciso falar bem próximo a ela para que a menina pudesse ouvir algo.
Me espantei, ela tocava tão bem...
Fui para casa e fiquei pensando como poderia ajudar Emily, pedi ao meu pai dinheiro para fazer aulas de piano, ele abriu a carteira e me perguntou de quanto precisava e me deu.
No dia seguinte fui até o estúdio e percebi que ela se assustou ao me ver, fiz minha matrícula e comecei a aprender aquele dia mesmo.
A mãe de Emily era um pouco severa, como não podia falar alto, nem fazer gestos comecei a conversar com Emily através das partituras, fingi não saber nada dela, perguntei seu nome.
Ela escreveu: Emily.
Assim dia após dia conversávamos sobre diversos assuntos, comecei a gostar de piano e meu pai me comprou um de presente.
Nas aulas de biologia, começamos a trocar bilhetes, e eu já não tinha tempo para os treinos de basket então saí do time. Criamos um sistema de conversas por papel, escrevíamos um para o outro.
Riamos tanto com tantas coisas bobas que escrevíamos... Melanie se acha a rainha da oitava série não acha Emily?
Ela respondia: Sim rsrsrs
A sorte de Emily foi ter sido alfabetizada plenamente antes de perder sua voz e sua audição então ela compreendia tudo ao seu redor.
Estávamos no meio do primeiro semestre, eu fiquei doente certo dia, então Emily me mandou mensagem de texto e eu a avisei que não iria à escola. Ela foi.
Melanie sempre zombava de Emily porém,  como ela não ouvia, não se entristecia.
Nesse dia Melanie tramou algo com suas capangas, embora não seja correto, nas escolas de Los Angeles e em boa parte dos EUA, o bulling é muito praticado pelos alunos.
Melanie esperou Emily sair da aula, ela se dirigia ao estúdio, então bateram nela... Muito...
Não recebi mensagens de texto aquele dia, e no outro, fui até a escola e Emily não estava. Matt me contou do acontecido, era o assunto da vez. Ao chegar no estúdio no final da tarde, Emily também não estava. Ela não respondia minhas mensagens e nem havia aparecido em nenhum lugar que costumava ir.
Minha salvação foi perguntar a Srta. Brown, ela me contou que tinham dado um afastamento para Emily e que ela poderia ser transferida para outra escola.
Fiquei bem triste e implorei para falar com ela... Ela acabou aparecendo no estúdio na tarde seguinte, então a convidei para ir a minha casa.
Lá falei o quanto me preocupava com ela, que não queria ver longe a única amiga que havia feito naquela escola...
Ela sorriu, disse que iria pensar em continuar lá, e me convidou para uma apresentação de piano que iria fazer. Logicamente aceitei.
Naquela noite abri a janela do quarto e fiquei observando o céu, pensando em minha procura pelo amor, em descobrir o que era amor... Não sei mas me convenci de que era isso que sentia. Era Emily quem eu amava...
Além disso, fiquei horas no paint preparando uma declaração cheia de corações que entregaria no dia da apresentação,e pensava, será que ela gostava de mim também?
Ela voltou a frequentar a escola, e Melanie pegou uma punição de suspensão por alguns dias, eu e Emily ensaiávamos todos os dias para a apresentação que ela tanto estava animada para fazer.
Alguns meninos e colegas da escola me perguntavam o que eu via na surdinha ou na mudinha por estar sempre junto dela, eu sempre respondi que ela era melhor que a maioria das pessoas que já havia conhecido, que ela era especial, pra mim.
Chegou o dia da apresentação e na manhã e tarde desse dia, Emily ficou ocupada com os preparativos, nos veríamos a noite, na hora da apresentação. Los Angeles inteira sabia do evento e ela estava esperando uma oportunidade de ganhar uma bolsa em uma escola de música na Europa.
Melanie também sabia. Ela tinha inveja de Emily e estava com raiva por ter sido suspensa. Preparou tudo. Encontrou com Emily saindo do estúdio, bateu muito nela, e ao empurrá-la, ela bateu a cabeça em um objeto pontiagudo no chão, pareciam cacos de vidro, ou uma pedra. Como Emily não se mexia, Melanie e as outras garotas saíram dali, correndo.
Todos estavam na apresentação, eu também,  esperando por Emily.
O tempo foi passando, e ela não chegava, foi quando a mãe dela me chamou em um canto e perguntou se eu havia visto Emily, ela só havia ido buscar uma partitura no estúdio. Me ofereci para ir procurá-la.
Ao chegar me deparo com Emily no chão, segurando uma partitura, tentei anima-la, acordá-la mas foi em vão...
Logo chamei quem pude, não havia mais nada a ser feito.
É, eu descobri o que era o amor, ele estava no chão, sem vida.
Dias depois, a mãe de Emily foi até meu encontro, me entregou uma partitura que disse que estava na mão da menina naquela noite.
No fim da folha estava escrito, Amo você Dave.
Dave sou eu. Emily me ensinou o que era o amor.
Entreguei meu desenho a ela, em seu túmulo.
De alguma forma ela agora sabe, ou sempre soube que eu a amava. Que eu sempre vou ama-la.

-Daiane C Silveira




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